terça-feira, 19 de novembro de 2013

Como fui arrebatado pelo teatro - por Ithamar Lembo

O primeiro contato que tive com o teatro foi numa pecinha de final de ano no primeiro ano primário em que eu fazia "o mato". Isso mesmo... o jardineiro passava regando o jardim e "o mato" crescia balançando as mãozinhas com uma roupa verde, de papel crepom, horrível. Detestei a experiência. Primeiro porque não fui o jardineiro, o "papel principal". Segundo por causa da roupa ridícula.

Depois, aos 12 anos, por insistência da minha mãe, entrei numa peça que uma amiga dela dirigiu, chamada O Fantasma de Canterville, de Oscar Wilde. Fui na marra, puto da vida ( acho que ainda traumatizado pela pecinha do primário ), mas minha mãe achava que aquilo podia me "acalmar" um pouco, me fazer "melhorar" porque eu era uma peste.

Passei quatro meses ensaiando na má vontade, muito a contragosto, sem o menor prazer. Só queria contentar minha mãe e não via a hora que aquilo terminasse, a peça estreasse e acabasse pra eu voltar a ter meu tempo livre e voltar ao meu futebol.

Sem perceber eu decorava o texto muito rapidamente, as marcações e ainda lembrava a dos outros e sugeria soluções para as cenas. Estava mais envolvido do que minha marra imaginava.

No dia da estréia, todo mundo nervoso, ansioso e eu ali, querendo que começasse logo pra que terminasse logo também. Então chegou minha hora de entrar e quando pisei no palco e vi aquelas cabecinhas na penumbra olhando atentas pra mim, aquele "ar" que emana das pessoas e toca você lá em cima, alguma coisa mudou dentro de mim. Saí fazendo o que tinha que fazer com outra energia, outro astral, sentindo até um certo prazer de estar ali. No meio dessa primeira sequência, tive uma idéia de fazer uma coisa que não estava marcada, não havia sido ensaiada. Fui procurar o "fantasma" na casinha do Cuco no relógio. Peguei uma cadeira, subi, abri a portinha e forçava a cabeça como se quisesse olhar lá dentro. A platéia veio abaixo. Quando escutei aquelas risadas foi como se eu me sentisse o cara mais poderoso do mundo. Fiz 400 pessoas rirem sem fazer força.

Uma hora e meia de peça depois, entramos pro agradecimento. Luzes acesas, platéia de pé, olhares felizes, sorrisos na cara, palmas eufóricas e naquele momento eu tive certeza que nunca mais abandonaria o teatro. E do alto dos meus 12 anos, disse pra mim mesmo: vou fazer isso para o resto da vida.

Lá se vão 35 anos e estamos aí, fazendo isso a vida toda.

Ithamar Lembo é ator

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Para pensar - Carta ao ator D - Eugênio Barba

Li essa carta na época da escola de teatro, lembro que a Mônica Granndo nos levou.
Ela faz todo sentido do mundo pensando no teatro e nos atores de hoje...
Especialmente a parte em destaque.

Por isso reproduzo abaixo.
Rita Brafer

"Carta ao ator D" - Eugênio Barba

"Freqüentemente me surpreende a ausência de seriedade em seu trabalho. Não é devido à falta de concentração ou de boa vontade. É a expressão de suas atitudes.

Antes de tudo, tem-se a impressão de que suas ações não são ditadas por uma convicção interior ou por uma necessidade que deixa sua marca no exercício, na improvisação, na cena que você executa. Você pode estar concentrado no seu trabalho, não estar se poupando, seus gestos podem, tecnicamente, ser precisos e, no entanto, suas ações continuam sendo vazias. Não acredito no que você está fazendo. O seu corpo só diz uma coisa: obedeço a uma ordem dada de fora. Seus nervos, seu cérebro, sua coluna não estão comprometidos, e, com uma atitude epidérmica, quer me fazer crer que cada ação é vital para você. Você mesmo não percebe a importância do que quer fazer partícipe os espectadores.

Então, como pode esperar que o espectador fique preso por suas ações? Como você poderia, assim, afirmar e fazer compreender que o teatro é o lugar onde as convenções e os obstáculos sociais devem desaparecer, para deixar lugar a uma comunicação sincera e absoluta? Você neste lugar representa a coletividade, com as humilhações que passou, com seu cinismo que é autodefesa, e seu otimismo, que é a própria irresponsabilidade, com seu sentimento de culpa e sua necessidade de amar, a saudade do paraíso perdido, escondido no passado, na infância, no calor de um ser que lhe fazia esquecer a angústia.

Todas as pessoas presentes nesta sala ficariam sacudidas se você efetuasse, durante a representação, um retorno a estas fontes, a este terreno comum da experiência individual, a esta pátria que se esconde. Este é o laço que o une aos outros, o tesouro sepultado no mais profundo do nosso ser, jamais descoberto, porque é nosso conforto, porque dói ao tocá-lo.

A segunda tendência que vejo em você é o temor de levar em consideração a seriedade deste trabalho: sente uma espécie de necessidade de rir, de distrair-se, de comentar humoristicamente o que você e seus companheiros fazem. É como se quisessem fugir da responsabilidade que sente, inerente à sua profissão, e que consiste em estabelecer uma relação e em assumir a responsabilidade do que revela. Você tem medo da seriedade deste trabalho, da consciência de estar no limite do que é permitido. Tem medo de que tudo aquilo que faz seja sinônimo de fanatismo, de aborrecimento, de isolamento profissional. Porém, num mundo em que os homens que nos rodeiam já não acreditam em mais nada ou pretendem acreditar para ficarem tranqüilos, aquele que se afunda em si mesmo para enfrentar a sua condição, a sua falta de certezas, a sua necessidade de vida espiritual, é tomado por um fanático e por um ingênuo. Num mundo, cuja norma é o enganar, aquele que procura "sua" verdade é tomado por hipócrita.

Deve aceitar que tudo no que você acredita, no que você dá liberdade e forma no seu trabalho, pertence à vida e merece respeito e proteção. Suas ações, na presença da coletividade dos espectadores, devem estar carregadas da mesma força que a chama oculta na tenaz incandescente, ou na voz da sarça ardente. Somente então, suas ações poderão fermentar conseqüências imprevisíveis.

Enquanto Dullin jazia em seu leito de morte, seu rosto se retorcia assumido as máscaras dos grandes papéis que viveu: Smerdiakov, Volpone, Ricardo III. Não era só o homem Dullin que morria, mas também o ator e todas as etapas de sua vida.

Se lhe pergunto por que escolheu ser ator, me responderá: para expressar-me e realizar-me. Mas que significa realizar-se? Quem se realiza? O gerente Hansen que vive uma existência respeitável, sem inquietudes, nunca atormentado por estas perguntas que ficam sem resposta? Ou o romântico Gauguim que, depois de romper com as normas sociais, terminou sua existência na miséria e nas privações de uma pobre aldeia polinésia, Noa-Noa, onde acreditava ter encontrado a liberdade perdida? Numa época em que a fé religiosa é considerada como neurose, nos falta a medida para julgar o êxito ou o fracasso de nossa vida.

Sejam quais foram as motivações pessoais que o trouxeram ao teatro, agora que você exerce esta profissão, você deve encontrar um sentido que vá além de sua pessoa, que o confronte socialmente com os outros.

Somente nas catacumbas pode-se preparar uma vida nova. Esse é o lugar de quem, em nossa época, procura um compromisso espiritual se arriscando com as eternas perguntas sem respostas. Isto pressupõe coragem: a maioria das pessoas não tem necessidade de nós. Seu trabalho é uma forma de meditação social sobre si mesmo, sobre sua condição humana numa sociedade e sobre os acontecimentos de nosso tempo que tocam o mais profundo de si mesmo. Cada representação neste teatro precário, que se choca contra o pragmatismo cotidiano, pode ser a última. E você deve considerá-la como tal, como sua possibilidade de reencontrar-se, dirigindo aos outros a prestação de contas de seus atos, seu testamento.

Se o fato de ser ator significa tudo isto para você, então surgirá um outro teatro; uma outra tradição, uma outra técnica. Uma nova relação se estabelecerá entre você e os espectadores que à noite vêm vê-lo, porque necessitam de você.




quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Como fui arrebatada pelo teatro - por Renata Belarmino

Ainda lembro, lá pelos meus 6 anos de idade, da minha mãe perguntando: “Então, você já escolheu o que quer fazer?” Sendo a quinta filha, e a mais nova, eu já via desde muito cedo os meus irmão envolvidos com atividades extracurriculares. Minhas duas irmãs faziam ballet, meu irmão mais velho desenho e natação e meu outro irmão, oscilando também entre futebol, natação e o Teatro.
Engraçado, eu pequenina acompanhando meu irmão com Zé Mojica, vulgo Zé do Caixão, no teatro. Que medo aquilo me causava, aquele caixão e aquele mundo, aquelas pessoas sorrindo frenéticas e satisfeitas pós-apresentação. Foi então que eu decidi o que faria Ballet. Um ano com meia calça, collant, faixa no cabelo, coque e uma energia que não conseguia acompanhar a leveza dos movimentos. Definitivamente não era minha praia, apesar de achar lindo. Desci do palco e disse que não queria mais, mas algo ficou desta experiência, subir no palco fez todo sentido, me senti livre, senti que podia dizer o que eu quisesse.
Aquela sensação permaneceu ainda durante alguns anos, mas fui fazer natação e sempre estive envolvida em testes e mais testes na infância, tanto para modelo infantil, como uma atriz mirim, contando com a experiência obtida em peças na escola (como eu ADORAVA). E então aos 12 anos iniciei os estudos, mas tudo não passava de um passatempo, minha atividade extracurricular, mas aos 15 anos quando me “libertei” de algumas amarras e atuei e dirigi num monólogo para um exercício em aula, eis que a ARTE me avassala, mostra que pode fazer muito por mim, por nós. O palco virou minha morada, as pessoas minha família. Entendi o que de fato é fazer ARTE.
O teatro é minha constante inquietação, ser ATRIZ não foi só questão de escolha, tenho certeza que o teatro nos chama. A minha maior expressão da alma, onde a Nutricionista Renata Belarmino é a Bela, a Rex, a Belarmino, onde a atriz é qualquer um, qualquer coisa sem limites, sem gênero, sem número, sem grau.

Renata Belarmino é atriz e nutricionista. (Escreve mensalmente para a coluna "Farol - Nutrição" do nosso blog)