sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Como fui arrebatado pelo teatro - por Alberto Guiraldelli


O ator em "Algumas vozes" - 2008
Quando eu estava na 7ª Série, um professor da minha escola pública da prefeitura estava montando um grupo de teatro para a nossa escola que não tinha sequer um auditório. Eu não atendi a esse chamado, provavelmente por vergonha, eu acho, já que sempre fui muito tímido. Fiquei surpreso que um dos meus melhores amigos aceitou entrar nesse grupo. Nunca imaginei ele em um palco ou fazendo alguma coisa artística. Ele era mesmo é bom de bola. Aquele professor e seus 10 ou 15 alunos, sem ajuda de dinheiro da escola, porque não havia nenhum, conseguiram com rifas e sei lá mais o quê, montar um palco em uma sala de aula que servia mais como depósito em prédio anexo. Nesse “teatro” eles fizeram tudo: mesa de luz, pequenos refletores, sistema de som, plateia com cadeiras enfileiradas, etc. Quando eu entrei lá primeira vez eu assisti aquele meu melhor amigo fazendo um dos papéis principais, não de uma peça infantil, ou adolescente, mas de uma adaptação de Dona Xepa, de Pedro Bloch. Eles todos ali naquele pequeno palco interpretando personagens com texto decorado e figurinos. Nós na plateia prestando atenção e acreditando naquilo que acontecia no palco. Tudo no espaço de uma sala de aula de uma escola da prefeitura de São Paulo no início dos anos 1980. Quando saí daquele verdadeiro teatro, eu senti com uma coisa que acho que misturava alegria e inveja. Queria fazer parte daquilo de qualquer forma, e com muita insistência, em alguns meses, eu estava na montagem seguinte daquele grupo, me apresentando para outras escolas da rede pública. E aquela energia que levava aqueles menino e meninas no início da adolescência a dedicar seus fins de semana e todos os horários possíveis a limpar o palco, costurar figurinos, ensaiar cenas e coreografias e arrumar tudo que fosse preciso para que acontecesse um espetáculo, nunca mais me abandonou, e eu desconfio que é essa a razão de por que, sempre que acaba uma peça e eu fico aguardando para cumprimentar alguém que eu conheça da produção, eu sinto um impulso imenso de ajudar os técnicos a desmontar o cenário.

Alberto Guiraldelli é ator, diretor e dramaturgo