sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Como fui arrebatado pelo teatro - por Darson Ribeiro


Darson Ribeiro
“Arrebatado” talvez seja um verbo perfeito no caso de quem realmente, se viu em êxtase pelo teatro, e é óbvio, que quando isso me ocorreu, eu nem sabia da existência dele, e, muito menos do teatro como profissão – essa, que eu escolhi lá, e mantenho, e, vivo dela.

Eu fui muito precoce, graças à uma mãe que, sofredora (como a maioria) vislumbrava um “ser alguém” pro mais novo de nove irmãos, e, por ela, me chafurdava numa mini bibliotecazinha da escolinha de madeira num sítio chamado Colônia Central, no interior do Paraná. Sítio onde nasci, e, como todo bom artista, carrega dentro de si.

Ela fazia o que hoje se denomina “adaptação”, de músicas sertanejas e outras melodramáticas ao extremo, e as encenava. E, eu sempre tava lá. Tão pequeno quanto meus olhinhos de criança, subia no palco e encarava a plateia formada por roceiros, sitiantes e fazendeiros, e suas respectivas famílias. Meus amigos de infância eram todos da roça.

Aos oito anos, já na primeira série do ginásio (pasmem!), min
ha aula de português foi interrompida por uma japonesinha chamada Deusa, que, a pedido da “Tia Cecília” tentava arrebanhar meninos e meninas para um Curso de Teatro, o Grupo TECO. E, lá fui eu. Lembro que na primeira leitura de PLUFT, ela dizia “você tem ótima leitura, mas, “canta” lendo teatro. E, teatro é diferente”. Se por um lado entrar pra esse mundo artístico foi bom, por outro, sofria, porque novinho, nunca tinha personagem pra mim, além do que, talvez, não houvesse tanta confiança num rapazola caipira, de pés empoeirados dentro das meinhas brancas do uniforme azul e branco. E, lá eu permaneci, e, além do teatro, aprendi com essa “tia” artes plásticas, danças folclóricas, jazz, e balé. Sim, o único moleque que encarou as aulas de balé que se seguiram até mesmo quando eu servi o exército. Subi no palco fazendo coadjuvante numa peça chamada O ESPANTALHO e, já ao ar livre, no Bosque Municipal. O sentimento espelhado nos olhos dos espectadores, e, principalmente da minha mãe, era algo que até hoje me arrebata. São olhares que me perseguem como se me guiando. Assim como de alguns professores que já depois, na Faculdade de Contábeis, me faziam voar pra palcos que hoje, eu frequento, e até dirigi, como o Guaíra em Curitiba, e os dois municipais, o de São Paulo e o do Rio, cujo arrebatamento foi ainda maior quando eu sabia que eu, aquele moleque caipira, dirigia um palco que incluía não só as sapatilhas que conheci de balé e jazz, mas, artistas fenomenais, óperas, shows, orquestras, e, óbvio, o teatro.

A fala ou o ouvir num texto teatral é pra mim, talvez, meu maior arrebatamento. É neles que me entrego. É com eles que me sinto pleno. É com eles que chego no final da equação sofrida pra ser apreendida lá atrás, mas, que, mais somando que subtraindo, me fizeram chegar nesse mundão do teatro.

Se por vezes questiono aquela mãe por ter insistido num vestibular de Contábeis, e, não de Letras, deixo de questioná-la imediatamente quando lembro de eu vestido de rei com capa de lençol velho..., que ela costurava. Se a primeira impressão é que fica, a vida difícil na roça, somada à adaptações altamente dramáticas por ela pro palco em paralelo a um sonho que já me atordoava a cabeça, me fez ator. Me fez teatro. Me fez homem de teatro.

Duas mulheres que nem se conheciam, e, que, indiretamente me apresentaram pra vida artística.
Já formado em contábeis, de novo aquela “tia” me procurou pra dizer que Artes Cênicas tinha sido instituído em Curitiba pela PUC, e durante o almoço daquele mesmo dia, a outra mulher – minha mãe – complementou “se é isso que você quer, filho, vá!”, e fui. E ainda estou indo.
E é assim, que quero continuar. Arrebatado pelo teatro.

Darson Ribeiro é Ator, Diretor, Cenógrafo e Figurinista, e Produtor