Coluna "Como fui arrebatado pelo teatro" - coletânea



Essa coluna começou a partir de uma pergunta inocente: "Qual é a primeira vez que você se lembra de ter sido pego pelo "bichinho do teatro"... E se transformou na série de lindas histórias que compartilhamos com vocês abaixo.
Curtam!!!
Salve o teatro!



Rita Brafer em Navalha na Carne
Como fui arrebatado pelo teatro - por Rita Brafer
O teatro entrou na minha vida de repente, me pegou desprevenida e me arrebatou para sempre!
Foi na escola, eu estava no colegial, 2º colegial. Na escola em que eu estudava, o saudoso "Paiva", uma escola estadual no Campo Belo em SP, tinha um teatro incrível. Teve uma apresentação de uma peça lá, era um Monólogo, o texto do ator eram poesias do Carlos Drummond de Andrade. A poesia saia da boca dele com tal naturalidade de fala que se entendia e se sentia tudo, mais que isso, se visualizava cada cena...tinha uma cena incrível, era o filho pedindo "abenção" ao pai, inúmeras vezes até que na última ele soltava um "Deus te abençoe e vai dormir desgraçado". A peça foi incrível, o cenário era simples, a luz era mágica o ator era um ser divino que desceu à terra aquele dia para me arrebatar, tenho certeza. Bom, tínhamos que escolher uma das cenas/poesia da peça para comentar e entregar como trabalho para a professora de literatura. Enlouqueci e comentei todas as cenas/poesias e entreguei um trabalho de 10 páginas.
A partir daí o teatro me prendeu. Ou melhor, me libertou! E cada peça que eu via meu coração palpitava antes da cortina abrir me imaginando atrás dela. Respirava fundo dentro dos teatros porque aquele cheiro me fazia bem, me dava vontade de chorar.
Até ir ao Paulo Eiró, em 1999, e ver uma montagem de Navalha na Carne de Plínio Marcos...e assisti de cima do palco (eles colocaram parte do público em cadeiras "dentro" do cenário para ter uma proximidade maior). Me apaixonei e aceitei que era esse caminho que eu também queria seguir. E queria, um dia, viver aquela mulher, totalmente humana que vi na Neusa Sueli, um dia no palco. Em 2010 realizei esse sonho.
O Teatro é meu. Eu sou Teatro."

Rita Brafer é atriz

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Como fui arrebatado pelo teatro - por Hélio Pajeú

Quando criança o mundo dos sonhos e da inventação já me fascinava. Mesmo sem nada entender, pegava as folhas que meu irmão datilografava, nas quais estavam escritas duas ou três palavras na mesma sequência, e as transformavam em belas estórias, em textos dramáticos, magníficas peças teatrais que só existiam na minha cabeça. Com elas em punho entrava no grande palco que eu enxergava no terreiro de frente da minha casa, lá no interior de Pernambuco. Ali travestido do personagem que eu encarnava, que só eu vislumbrava, emocionava a grande plateia que me aguardava depois do limiar: a singela plantação de cana cana-de-açúcar de papai, que pra mim era um imenso público adorável que me aplaudia ao fim de cada espetáculo. Ali sentia o calor das luzes que me alumiavam no centro da cena, que vinham direto do sol. Sentia também o breu que vinha do anoitecer. Naquele meu palco inventado eu fui rei, fui amante, fui menino, fui cangaceiro e herói. Anos mais tarde, já não tão ingênuo, dentro da caixa preta e com um palco de verdade pude sentir, sem fantasiar, as delícias de dar vida a um personagem numa história de outrem. Foi no Teatro Fernando de Azevedo, na Praça da República que dei feitio ao Cabo Arlindo, na peça Xandu Quaresma de Francisco de Assis. Não consigo descrever a sensação que tomou conta de minh’alma, mas ela me acompanha até hoje e era exatamente a mesma da primeira vez que subi ao meu palco diante das folhas secas que me aplaudiam fervorosamente, ali naquele instante remoto que me reconheci artista e que constitui minhas mais alegres memórias teatrais.

Hélio Pajeú é ator e bailarino (como ele diz: "um escrivinhador de garatujas")

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A atriz em Camille e Rodin
Como fui arrebatada pelo teatro - por Melissa Vettore

A primeira vez que senti que queria subir no palco foi quando tinha uns seis anos e assisti um show da Rita Lee. Era ainda com Tuti Frutti, ela trocava de roupa um monte de vezes. Era meio transgressora. Gostei tanto que minha mãe me levava em todos os shows dela até já estar maior. Ei pirava com a Rita Lee! Depois eu ficava imitando as Frenéticas em casa. Essas duas foram as maiores influências na minha infância.
Depois veio o teatro com o Vento Forte. Eu assistia sempre as peças deles quando tinha de uns sete a nove anos, éramos vizinhos, e eu ficava todas as tardes refazendo com as amigas o que tinha assistido.
Fazia ballet,gostava daquilo e tinha uma tia fotógrafa que me fazia posar o dia inteiro!
Com treze meu pai me levou para ver Kazu Ohno. Aí foi inesquecível. Depois veio o Antunes e pronto. Eu já sonhava que era isso que eu ia fazer.

Essas foram as minhas primeiras influências...!

Melissa Vettore é atriz

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O ator em Anjo Negro
Como fui arrebatado pelo teatro - por Déo Garcez

Minha primeira experiência com o teatro se deu enquanto espectador, aos onze anos de idade em São Luis/MA.
Foi paixão à primeira vista mesmo. Era uma peça infantil e eu fiquei tão fascinado por aquele mundo do faz-de-conta que naquele exato momento disse pra mim mesmo que queria ser ator. A coisa que mais me tocou nessa primeira experiência foi o fato de poder viver um mundo paralelo ao meu e poder criar personagens , coisa que intuitivamente eu já fazia em casa com meus irmãos. E foi também naquele mesmo teatro, o Arthur Azevedo, que tive minha estréia como ator, aos 12 anos de idade.

Déo Garcez é ator

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Como fui arrebatado pelo teatro - por Gustavo Haddad

Meu primeiro contato com o teatro foi aos 13 anos em minha cidade natal, Bauru SP.
Em  fevereiro de 1989, numa terça feira chuvosa de carnaval, fui levado por uma amiga de infância para conhecer uma senhora, proprietária de uma escola de datilografia, Dona Celina Lourdes Alves Neves (professora, autora e diretora de teatro com uma vasta biblioteca teatral).
Até então meu interesse estava só em aprender a “arte de datilografar”- nossa como estou velho!!
Comecei a freqüentar as aulas de datilografia.
Como exercício para aprimorar minha digitação, Dona Celina, me oferecia textos de teatro para copiar através da máquina de escrever. Foi ai que o teatro me pegou, fiquei fascinado por aquelas histórias e a forma como eram contadas, com diálogos, cenários e ações. Conclusão, lia os textos até a última linha sem apertar um único botão da maquina de escrever. Logo ficou claro, para mim e para paciente professora, que eu não teria futuro com a datilografia.
Nos aventuramos então em uma montagem amadora e o texto escolhido foi “O pedido de casamento” de Anton Tchecov, ensaiamos durante 2 meses na sala de visitas da casa de Dona Celina e fizemos uma única apresentação, em um Espaço Cultural no centro da cidade, minha primeira tentativa nos palcos.
Segui com o teatro amador, até que em 1993 tive a experiência definitiva. Assisti na praça da Catedral, no cento de Bauru, a montagem de “Romeu e Julieta” do Grupo Galpão com direção do Gabriel Villela. Depois de ver o que esta trupe mineira fazia em cima de uma Veraneio, fui arrebatado pelo teatro e tive a certeza que era esta a estrada que eu queria percorrer.


Gustavo Haddad é ator

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Como fui arrebatado pelo teatro - por Ney Piacentini

Eu cursava a Universidade Federal de Santa Catarina, não lembro se era o curso de Engenharia Civil ou o de Psicologia e aí vi uma plaquinha anunciando "curso de teatro" e fui ver o que era. Fora do curso da UFSC eu era ligado em basquete e fazia parte da seleção universitária.

Mas depois daquele plaquinha sobre teatro, já são quase 35 anos de profissão, cheia de percalços e alegrias.

Ney Piacentini é ator


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Como fui arrebatada pelo teatro - por Thaïs Garayp
O curioso é que eu não me lembro da primeira peça de teatro que ví. Quando pequena meu pai costumava nos levar ao cinema, e eu era fascinada pelos musicais hollywoodianos que via na TV, queria ser como aquelas lindas mocinhas dançantes e cantantes. Então minha mãe me levou ao balé quando menina. Este foi meu primeiro contato com o palco, gostei.

Eu já gostava de cantar desde sempre, tive até vontade de ser cantora lírica, e aí aconselhada pelo professor de teoria musical que achava minha voz bonita, aconteceu de eu ir cantar em coral porque queria estudar ingles e a escola de idiomas dava bolsa pra quem participasse do coral. Uni o útil ao agradável!

Depois que estudei Engenharia Civil, entrei pro coral da Universidade/UFMG e daí viajei o mundo de 79 a 93 com o “Ars Nova” e foi quando pisei vários palcos internacionais e gostei mais ainda.

Mas a coisa que mais me emociona é lembrar de como a vida vai enredando a gente e nos conduzindo pra onde temos que chegar, é só a gente se deixar levar. Entrei prum grupo vocal menor que tinha uma proposta mais perfomática harmonizada pra 8 vozes e todo mundo ficava buzinando no meu ouvido que eu era muito “expressiva"  e que devia então fazer teatro. Resumindo, uns anos depois aconteceu um teste pro musical "Mulheres de Hollanda" em BH, que era uma espécie de "colcha de retalhos" apanhados da obra do Chico Buarque que abordava o universo feminino e eu então entrei pra ser cantora.

Acontece que com o processo de trabalho em improvisos fomos, eu, o diretor e as colegas descobrindo que eu podia ser atriz e quando me ví, estava fazendo trechos de Gota D'Agua como Joana, uma encenação de uma mãe que cantava "Meu Guri", a mulher de "Suburbano Coração", e vários outros papéis contundentes.

Bem, vocês podem imaginar a revolução que foi na minha cabeça e na minha vida, eu fui absoluta e definitivamente arrebatada pela magnífica obra de Chico Buarque e também pela arte de representar, pelo Teatro!

Deixei tudo, a Engenharia, os corais, e me entreguei de corpo e alma ao ofício e nunca mais parei, até esbarrar na TV que aí já é outro papo, proutra hora.

Foi uma Paixão avassaladora, que me mudou como ser humano e digo com toda certeza que para bem melhor! O mais bonito disso tudo é lembrar que foi o cinema que me conduziu ao balé, que me conduziu ao sublime da Música, que me conduziu ao também sublime ofício de ser Atriz. Tenho muito orgulho te ter dado a sorte  a alegria desse percurso!

Thaïs Garayp é atriz e cantora

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Como fui arrebatado pelo teatro - por Carlo Briani

 
A primeira coisa que me vem na cabeça é o cheiro de mofo do palco do teatro do sesc de Bauru em 1971... eu comecei lá, fazendo um curso de teatro amador chamado Gruta.. comecei por curiosidade, que se transformou numa paixao com a primeira montagem que era uma criação coletiva sobre a musica “Nothing is gone a change my world...” e numa epoca de repressão de vontade de falar.. adolescencia ... etc etc .. foi o terreno fertil para me decidir a continuar nesta estrada.. depois veio o teatro da Accademia de Roma e aí foi de vez ... o virus do teatro me pegou definitivamente... e o que me impressionava... era encontrar o mesmo cheiro de mofo em todos os velhos palcos..
Sempre o mesmo !! maravilhoso e sedutor !!

Carlo Briani é ator

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O ator em Einstein
Como fui arrebatado pelo teatro - por Carlos Palma

Eu é que invadi ele com minha mãe pelos 5 ou 6 anos numa comédia amadora feita pelo que soube e me lembro por operários do sindicato dos tecelões no Circulo Operário pertinho de casa nos Campos Elíseos em Ribeirão Preto no final dos anos 50. A peça? Uma imitação bem amadora do musical Uma Pulga na Camisola grande sucesso no Rio daquela época. Vários daqueles atores passavam frequentemente na frente de casa e sempre me lembrava deles no palco quando eu os vi pela primeira vez. Voltamos várias vezes para ver outras representações, outras peças.

(Mais tarde descobriria que minha mãe havia feito teatro em sua terra natal, Ibirá, representando Maria Madalena em encenações religiosas.)

E foi neste momento que as radio novelas invadiram minha casa quando minha mãe costurava que nem louca para contribuir no sustento obrigando-me ouvir junto histórias de fazer lágrimas.

E a noite na cama, com meu pai do lado, grudado no rádio ouvia programas humorísticos vindos da carioca e antiga Rádio Mayrink Veiga.

Fui pego assim pelo teatro, pelos amadores e pelo rádio, bem pequeno onde tv só existia para poucos.

Carlos Palma - ator (Núcleo Arte Ciência no Palco)

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Como fui arrebatado pelo teatro - por Chrys Madeira
A primeira de todas foi aos 6 anos de idade, no Colégio dos Santos Anjos, lá em Varginha, fazendo a
Branca de Neve em uma "pecinha". O colégio era maravilhoso, tinha um teatro delicioso e na minha turminha tinha uma galera que adorava fazer teatro, lembro que brigávamos muito com as freiras para conseguir fazer nossas peças e o melhor, é que sempre estávamos no palco, pois qualquer data ou acontecimento era motivo para irmos à cena.
O meu primeiro prêmio em Teatro, foi na quarta série primária como melhor direção, o espetáculo era "Robin Hood". Tenho até hoje a minha
placa de prata. Desde muito cedo surgiu a paixão pelo Teatro em mim, aliás, isto vem de outras vidas...
Ah, tenho muitas histórias desta época tão deliciosa e inocente...
Vixe!!! Não só desta época, agora começou a vir outras muitas na cabeça...

Chrys Madeira Kaya Mujeuin – atriz, diretora e arte-educadora

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Como fui arrebatado pelo teatro - por Beth Néspoli
Tenho a lembrança vívida do primeiro teatro que vi, aos cinco anos, no pátio da Igreja Católica que eu frequentava. Era sobre um caminhão, na boleia do caminhão, e era um teatro de bonecos de luva, de fantoches, não sei bem como chamar, acho que tem um nome específico. Lembro que tinha aqueles personagens característicos, o criado negro esperto, o coronel mandão, os enamorados. Eu fiquei encantada com aquilo. Dois anos depois, já aos oito, também na Igreja, vi um teatro 'de gente'. Não lembro direito a história, só lembro de um menina cantando com uma voz linda. Achei aquilo igualmente maravilhoso, mas era tudo muito onírico, como um sonho. Aí, só aos 19 anos voltei ao teatro (eu morei em Niterói até os 26 anos, e Niterói não é o Rio, menos ainda na época que eu era criança, e minha família não tinha o hábito de ir ao teatro). Aos 19 (1976) eu vi Equus, do Peter Shaffer, um drama psicológico, numa montagem protagonizada por Ricardo Blat dirigida pelo Celso Nunes, no Rio, no antigo Teatro da Caixa. Aí o teatro me pegou. Eu vi no palco, porque era uma daquelas montagens na qual os atores não saim do palco, quando estavam fora de cena, sentavam ali mesmo, em cadeiras, e observavam os outros. Antes do início do espetáculo chamaram pessoas do público, quem quisesse, para sentar ali, no palco, nas cadeiras que sobravam, junto com eles. Eu imediatamente subi. Nem sei por que tive esse impulso. Eu e meus amigos, éramos eu e três amigos homens.
Foi um impacto. Vi pertinho, vi ao lado dos atores que estavam 'fora de cena' e pela primeira vez eu vi algo que não era 'encantandor', pelo contrário, era terrível, alguém cegava cavalos, tinha uma 'transa' em cena com atores nus e, mais do que tudo, o teatro fez com que eu compreendesse os 'motivos' para alguém cegar cavalos. Era possível compreender profundamente um ato à primeira vista monstruoso. Eu estava com amigos, mas saí em silêncio, nem queria falar, estava totalmente mobilizada. Os cavalos, lembro até hoje, eram bailarinos com uma máscara de metal vazada e dentro delas havia lanternas em lugar dos olhos, que os atores apagavam ao serem cegados. A linguagem não era de um naturalismo amesquinhado, havia procedimentos estéticos, como o uso de máscaras e a coreografia dos cavalos e ainda a ocupação do palco pelo público que contribuíam para pertubar a recepção. Enfim, eu vi esse espetáculo três vezes seguidas e daí em diante nunca mais deixei 'as plateias'

Beth Néspoli - jornalista

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Como fui arrebatado pelo teatro - por Murilo D. César
Eu tinha 17 anos e, como era católico, frequentava a Igreja Matriz do Bairro de Santana. Atrás dessa igreja e de propriedade dela, havia um salão paroquial em que se realizavam conferências sobre religião, peças teatrais e shows de amadores. Por curiosidade, fui assistir a um show desses shows, muito simples, em que havia de tudo: jogral, declamações, músicas tocadas ao piano (quase sempre religiosas), quadros de humor, etc. Fiquei maravilhado e pedi para participar do próximo show do jeito que me fosse possível. Puseram-me num número de jogral: era a história de um peixinho que, pescado, torna-se amigo do pescador, que passa a educá-lo como gente. Aí o peixinho desaprendeu a nadar e, quando retornou à água, morreu afogado. Soube muito tempo depois que se tratava de uma historieta  de Mário Quintana e assisti a mesma historieta muito bem interpretada por Paulo Autran, no monólogo “Quadrante”. A partir desse jogral, passei a fazer parte do grupo amador da Igreja de Santana e, como ator, trabalhei em diversos shows e peças, entre as quais DE TAMANHO DE UM DEFUNTO, de Millôr Fernandes; O HOMEM DA FLOR NA BOCA, de Pirandello e ANASTÁCIO, de Joracy Camargo. Quando estávamos para montar A MORATÓRIA, de Jorge Andrade, o pessoal se desentendeu e  cada um tomou seu rumo. Deixo claro: essas três peças foram muito bem encenadas, graças a Sebastião de Souza, um diretor competentíssimo vindo da antiga TV Tupi, que me ensinou muito do que aprendi sobre teatro, especialmente estudo pormenorizado do texto e de cada fala dos personagens, movimentação cênica, postura, entonação etc.  Tão bem feito era nosso trabalho, por exemplo, em DE TAMANHO DE UM DEFUNTO que, na mesma ocasião em que estávamos em cena com essa peça, fomos assisti-la no Maria Della Costa, então o melhor teatro de São Paulo, interpretada por conhecidos atores da época, entre os quais o saudoso Fernando Baleroni, então famoso ator de teatro, cinema e tevê.. Saímos do teatro felizes da vida. Nosso trabalho (afirmo isso hoje, com absoluta certeza, mais de quarenta anos) era melhor. Ouso dizer: bem melhor e graças, repito, ao grande diretor Sebastião de Souza com quem,  infelizmente, nunca mais tive contato.

Nosso grupo – inesquecível! – tinha um título pomposo dado pelo Sebastião: ART – ACADEMIA DE REPRESENTAÇÃO TEATRAL.

Ah, nós nos amávamos tanto... Éramos tão amigos, tão companheiros, andávamos sempre  juntos enquanto durou o grupo em festas, bailinhos, passeios... e, principalmente, éramos tão  jovens, quase meninas e  meninos – e talentosos!... Disse que nunca mais tive contato com o Sebastião; aliás, nunca mais vi nenhuma companheira, nenhum companheiro da ART – ACADEMIA DE REPRESENTAÇÃO TEATRAL. Todos tão queridos…

Com frequência, em meus muitos momentos de solidão, melancolia / nostalgia, ponho-me  a pensar: onde
será que andam, onde será que andamos todos nós… todos nós que éramos aquelas moças e aqueles rapazes tão bonitos, tão jovens,  tão talentosos, tão sorridentes  e, principalmente, tão felizes da vida?

Murilo D. César - ator, diretor e dramaturgo

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Como fui arrebatado pelo teatro - por Wismar Rabelo

Como eu entrei no Teatro?
Tudo começou quando fiz a letra da música  - Africando (Benguela e Luanda)


Meu parceiro Lula Barbosa disse:
- Cara, o que você pensou, essa letra é uma coisa é uma história...

Descobri que Teatro não é história é enredo ...
Escrevi um texto  "Bacalhau com tempero brasileiro" e no Teatro Maria De La Costa fizeram a leitura do meu texto.
Ali fui convidado a fazer parte de um grupo de estudo DRAMATURGIA coordenado por Chico de Assis.
Bebi da água, adorei e continuo escrevendo mesmo tendo dificuldade em mostrar meus textos.


Wismar Rabelo - poeta, compositor e dramaturgo

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Como fui arrebatado pelo teatro - por Admir Calazans



O bichinho do teatro me picou la na época do colégio. Tinha uma professora  (Nanci) de educação artística, que tinha o teatro como ferramenta de trabalho. E eu achava aqueles trabalhos os que eu mais me divertia, até porque desenhar eu era um fracasso. Taí, esse foi meu primeiro contato e, direto, porque já estava atuando. O primeiro espetáculo que me lembro de ter visto e achado o máximo foi: Sades ou noites com professores imorais do Sátyros....... ahhhhh viajei, me vi ali!Naquele espaço cênico.

Admir Calazans - Ator

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Como fui arrebatado pelo teatro - por Daphne Rego
O meu primeiro contato com o teatro foi quando eu tinha uns 7 anos, acho eu. Fui ver uma peça "O Chapeuzinho vermelho" com a turma da escola. E lembro-me que fiquei encantada...e quando terminou a peça, as cortinas (do teatro italiana) eram um vermelho muito intenso, quase sangue vinho e as outras crianças foram pedir autógrafos para a personagem principal e lembro-me de querer muito chegar perto da atriz mas a minha timidez não me permitiu. Mas fiquei mesmo admirada com toda a magia teatral. Tudo era lindo...o palco, as cortinas (que, devo dizer, foi o que mais me fascinou...e penso que me fascinou foi a questão do "abrir" do meu imaginário...existia um certo mistério...), as cadeiras, a alegria do público... enfim. Amei mesmo! Foi uma experiência incrível.

Daphne Rego - Atriz

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Miguel ao centro
Como fui arrebatado pelo teatro - por Miguel Hernandez
Relembro que a primeira casa de minha infância era dentro de um estacionamento na Avenida Floriano Peixoto (que hoje é um shopping). Lá tinha um grande corredor por onde entravam os carros. O dono desse estacionamento, seu Miranda, era um artista plástico amador e durante anos foi criando inúmeras máscaras com que decorava a entrada do local. Na minha infância, para entrar e sair de casa eu passava por esse corredor. Todos os dias por entre essas máscaras africanas, orientais, indígenas, carnavalescas, demoníacas, monstruosas... Eram dezenas, frutos da imaginação de um artista diletante que insistentemente tomaram forma como um sopro de liberdade numa época censurada. Esse foi meu início involuntário no Teatro.

Miguel Hernandez é ator e diretor

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Como fui arrebatado pelo teatro - por Marat Descartes

Uma das experiências mais marcantes pra mim no teatro, pelo menos uma das primeiras, e que por isso foi definitivo para que eu me apaixonasse pelo teatro foi a peça O Beco - A Opera do Lixo, do Grupo Ponto de Partida, de Barbacena/MG. Acho que era 1992, se não me engano, tinha começado há pouco a fazer teatro amador com um grupo da escola, e fomos em grupo assistir ao belíssimo musical do grupo mineiro, que estava em cartaz em SP no Teatro João Caetano, e fiquei tão apaixonado pela montagem, e pelo grupo, que voltei mais umas cinco vezes pra assistir o espetáculo! Fiquei tão fã do trabalho deles, que me lembro daquela sensação clássica do "garoto que quer fugir com o circo!!! Foi mesmo muito marcante!!! Pra imaginar a força daquele grupo basta saber que eles já existiam desde 1980... e acabo de descobrir pesquisando na internet que estão na ativa até hoje!!!

Marat Descartes - ator

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Como fui arrebatado pelo teatro - por Renato Scarpin
Acho que o teatro "cocus" me infectou quando assisti "Bella Chiau" em Curitiba! Eu anda fazia faculdade de engenharia e já tinha feitos esquetes no escotismo. (aliás, a minha 1 especialidade de escoteiro foi a de artista!). Aquela peça mexeu comigo e até hoje tenho vontade de montar esse trabalho.
Depois de formado, me inscrevi num curso de teatro chamado "Pé no Palco". E foi a minha sorte, pois a 
diretora é a responsável pela minha descoberta da minha vocação. Por isso digo que a Fátima Ortiz é a minha madrinha na profissão!!

Um Viva ao teatro !!

Renato Scarpin - ator

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Como fui arrebatado pelo teatro - Débora de Souza
Quando era criança participava de algumas peças da escola. Mas o contato com o teatro mesmo foi na época do vestibular quando fui assistir Camões com Paulo Goulart. Fiquei encantada com a atuação e os poemas! E neste momento surgiu a paixão por esta arte e não parei mais de me emocionar e deliciar com o teatro.

Débora de Souza - artesã, figurinista e estilista (Maruja da Cia. Nó ao Vento)

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Como fui arrebatado pelo teatro - por Vanda de Jesus
Desde que me deparei com essa pergunta do blog fiquei cavocando na memória... esta, gasta, cansada, esquecida...
...teatro, teatro mesmo, não consegui me lembrar qual foi.

Mas me veio a recordação da primeira série, em 1975, na escola, quando vi as professoras no palco do teatro vestidas de bruxinhas, encenando e cantando pra nós... não me lembro exatamente qual era o roteiro, mas foi uma alegria imensa ir descobrindo quem eram aquelas personagens por dentro e por trás daquelas roupas, máscaras... hoje compreendo o carinho que elas tiveram ao se prepararem para uma apresentação tão alegre...  a sensação foi muito boa por saber que ali tinha um carinho enorme por nós, as crianças carentes da época.
... ainda hoje é na escola, para muitas crianças, que ocorre o primeiro contato com as artes; por isso é necessário que haja projetos intersecretariais, como o "formador de público" de uma gestão municipal passada... teatro, música, dança, artes plásticas... a arte pode transformar a sociedade!

Vanda de Jesus - educadora

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Como fui arrebatada pelo teatro - por Denise Orthis
"O primeiro contato que tive com o teatro foi para um trabalho de escola. Como não suportava isso, então assisti uma peça que falava sobre a Marquesa de Santos e depois da peça aconteceu um bate papo com os atores. Eles explicaram o processo e foi a partir daí que me apaixonei.
Depois disso comecei a assistir outras peças e ficava cada vez mais apaixonada. Trabalhava em uma empresa que tinha a semana da Sipat que falava sobre a prevenção de acidentes no trabalho, entrei para esse grupo para fazer a apresentação e foi amor eterno. Depois disso entrei para o curso de teatro e graças a Deus não parei até hoje e espero continuar até o quanto meu corpo e mente puderem agüentar.
Bom foi isso o que a aconteceu comigo."

Denise Orthis é atriz e professora de teatro infantil

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Como fui arrebatada pelo teatro - por Sandra Dias
Comecei a fazer teatro, apresentações pequenas na igreja que eu frequentava. Eu assumi a coordenação de um grupo de jovens na minha cidade e uma vez por mês o padre abria espaço para que a gente fizesse algo na missa, cantar, dançar algo para evangelizar os adolescente, porém a unica coisa q eu conseguia fazer eram encenações atraves do evangelho do dia. Isso me facinava, eu fica deslumbrada com o coração disparado parecendo que ia sair a qualquer momento pela boca, pelas minhas pernas ficarem bambas. E ali começou um caso de amor, meu com a arte e depois de um tempo resolvi estudar e me dedicar um pouco a mais. Pois, só assim eu sentia que era plenamente feliz."

Sandra Dias é atriz

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Como fui arrebatada pelo teatro - por Cláudia Fernanda
"Meu primeiro contato com teatro eu devia ter uns 5 ou 6 anos e meu pai me levou pra ver uma peça infantil no Parque São Jorge (quem é Corinthiano entende!)...
Foi nesse infantil que fiquei encantada!!! Pra sempre!"

Cláudia Fernanda é atriz


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Como fui arrebatado pelo teatro - por Ricardo Grasson

Meu primeiro contato com o que você chama de "o bichinho" foi em uma aula experimental com a atriz Celia Helena. Passei 2 horas ouvindo ela falar sobre o "ser ator" e entre as muitas coisas que ela disse naquele dia me marcaram as seguintes: ...o ator é aquele que tudo observa... ...leiam estudem, leiam estudem, leiam estudem... o teatro é como um virus de uma doenca sem cura, quando entra dentro de vocÊ nunca mais sai, a diferenca da doenca é que você reza todos os dias para ele nao te abandonar.

Ricardo Grasson é ator

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Como fui arrebatado pelo teatro - por Uarlen Becker
Meu primeiro contato com o teatro foi ainda criança, eu devia ter uns 08 anos, vi uma peça de rua (ou seria performance? Ou estou enganado e não foi teatro, foi real?) numa praça que abriga um cine teatro e onde está localizada a antiga casa da família do poeta Castro Alves. Era um dia de domingo e eu lembro de uma noiva chorando, depois falando um poema e uns três ou quatro músicos vinham atrás tocando uma música triste. Entraram no teatro. Não entrei. Depois, todos os domingos lá estava eu pedindo para entrar de graça na casa de espetáculo, o Cine Teatro Solar Boa Vista. Vi muita peça infantil por lá, lembro do colorido dos cenários. Mas a noiva chorando, declamando poemas e com os músicos jamais esqueço.

Uarlen Becker - ator e diretor

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Como fui arrebatado pelo teatro - por Rodolfo García Vázquez
A primeira experiência realmente epifânica que tive com o teatro foi quando assisti ao Trilogia Kafka, o Processo de Gerald Thomas. A primeira cena abria com algum trecho de uma ópera do Wagner, muita fumaça na sala e pin beams recortando o ar. As sombras dos atores passeavam entre os recortes de luz. Aos poucos, se revelava o cenário de uma biblioteca gigantesca de Daniela Thomas e o Damaceno surgia, tragicamente envolto no mito kafkiano. Aquilo foi o suficiente para entender que o teatro poderia inspirar uma experiência sublime. E é a força daquela imagem teatral suprema que sempre busco realizar no meu trabalho.

Rodolfo García Vázquez  - do ator, diretor do grupo de teatro Satyros e professor da São Paulo Escola de Teatro

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Como fui arrebatado pelo teatro - por Vanessa Santana
Foi no Macunaíma, fazendo uma cena de abajur lilás( eu tinha 14 anos, quanto tempo...).
Todas as peças me marcaram de formas diferentes, mas fazer a cena do estupro da Maria Cecília em "Bonitinha, mas ordinária" me marcou por ser um personagem e uma cena que eu nem imaginava como seria. Fora As troianas...sem comentários!!

Vanessa Santana – Atriz e fisioterapeuta

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Como fui arrebatado pelo teatro - por Luiz Thomaz


Foi no Teatro Dulcina, Rio de Janeiro, quando Jorge Amado assistiu a uma apresentação especial da peça Velhos Marinheiros (adaptação da obra dele), e ao final, ele subiu no palco e conversou com todos nós.

Luiz Thomas – ator, diretor e professor de interpretação

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Como fui arrebatado pelo teatro - por Kamunjin Tanguele

Meu primeiro contato com teatro foi aos 6 anos de idade, no pré-primário (olha isso!!! sou do tempo do
pré-primário e não Educação Infantil!). A gente tinha bastante atividade de teatro lá. Volta e meia a professora fazia teatro com a gente. Apesar de eu sempre fazer teatro na escola, esta opção de ser atriz nunca havia passado pela minha cabeça. Sempre quis ser médica... Mas nunca estive fora do palco... Então, lembro que minha primeira experiência foi fazendo a Nossa Senhora da história do Negrinho do Pastoreio.Lembro da roupinha e tudo... Eu falava e abençoava o Negrinho.Ficava emocionaaadaaaa!(risos)... Que legal... Boas lembranças essas...
Depois fui crescendo e aos 18 anos de idade pensei pela primeira vez em fazer teatro profissionalmente. Prestei vestibular pra 1a. turma de cênicas da USP, quase entrei, ficou faltando só uns 30 pontos pra conseguir!Brincadeira... Bom, como não passei, me afastei um pouco do teatro por uns 6 anos e retornei já morando em Campinas e fiquei nele até hoje.
Agora tô na USP, na Linguística,pra eu conseguir minha resposta a respeito da enunciação (do momento da fala efetivamente) do ator. Respostas estão por chegar, viu? Tenho descoberto coisas bastante interessantes neste ponto.
E é isso... Este foi o bichinho do teatro que entrou em minha alma e se manterá por toda eternidade eu acredito. No mais, continuamos nossa jornada, né? Parabéns ao grupo pela iniciativa, viu? Muito legal da parte de vocês abrirem espaço no blog pra partilhar as experiências de outras pessoas.Dizem que um bom contador de histórias é aquele que vive suas experiências por si e por ouvir as experiências de outrem...

Kamunjin Tanguele - atriz, diretora e arte-educadora

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Como fui arrebatado pelo teatro - por Jacqueline Rodrigues
Não me lembro a data, mas sei que ja faz alguns anos, uns 4 mais ou menos que um amigo meu, que é ator, me chamou pra assistir uma peça de teatro, na época parecia coisa de outro mundo e de fato é, o teatro nos leva pra outro mundo ou pelo menos a exergar o mundo de outra forma.

Me lembro da emoção de simplesmente comprar o ingresso na bilheteria, parecia criança na fila do algodão doce. (risos)

Ao entrar no teatro parecia algo magico, o palco, as luzes, as poltronas, o cenario...tudo muito lindo.

A peça foi incrivel e desde entao me apaixonei!

Teatro é assim faz algo simples ser surreal e verdadeiro.

Seja pra rir, chorar, emocionar...sempre existe uma mensagem que fica gravada no coração seja do publico seja do ator.

Jacqueline Rodrigues - uma amante confessa do teatro

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Como fui arrebatado pelo teatro - por Marco Aurélio Ozzetti

Meu primeiro contato com teatro, foi inesquecível. Nunca tinha ido ao teatro. Assisti 3 vezes o musical "DZI
CROQUETES", em 1972.


Marco Aurélio Ozzetti do Espaço Cultural Tendal da Lapa

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Como fui arrebatado pelo teatro - por Marcos Tibério
Meu primeiro contato com o teatro foi com 14 anos numa pequena peça da escola, fiz um personagem que era um inspetor de alunos, uma pequena participação.
Depois fui ter contato com o teatro no curso básico do Macunaíma e foi num esquete na aula do Zé Aires que fiz a minha primeira cena com uma garota chamada Ligia, a cena ficou muito legal e foi muito elogiada, fiquei feliz e satisfeito. Acho que é isso.

 Marcos Tibério - ator

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Como fui arrebatado pelo teatro - por Regis Monteiro


Meu primeiro trabalho foi uma produção de Cleide Yáconis - Capital FEDERAL no Teatro Anchieta, sob direção de Flavio Rangel- 1972 - já era ator de novelas na extinta tv tupi....foi um grande marco em minha carreira....com Suely Franco, Riccelli, Walter Breda, Neusa Borges, Odilon Wagner, e muitos outros ,todos muitos queridos !!!!!


Regis Monteiro - Ator



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Como fui arrebatado pelo teatro - por Maria Isabel Gomez

A primeira vez que vi teatro, foi marionete eu tinha 4 anos. Meu avô me levou e em seguida me fez teatro em casa pois ele era ator. foi assim!

Maria Isabel Gomez - da coordenadora de produção da Conteúdo Teatral

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Como fui arrebatado pelo teatro - por Fábio Jerônimo


Posso dizer que o teatro entrou em minha vida de forma plena quando li "Pra acabar com o julgamento de Deus" do Artaud, não sei expressar ao certo o que senti e sinto quando leio e releio o texto. Até então não gostava de teatro, achava tudo muito chato e cá estou eu no ano que completo 20 anos de palco e bastidor respondendo sobre minha primeira experiencia.


Fábio Jerônimo – ator e técnico teatral

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Como fui arrebatado pelo teatro - por Cláudio Phonseca

Minha primeira experiência com o teatro foi criar um texto teatral pra escola, pra aula de português, já comecei escrevendo, dirigindo e atuando. Muito ousado. Era um texto simples, que falava da adolescencia e seus conflitos.
Sem percerber, o bichinho da arte, mais especificamente o bichinho do teatro havia me infectado. E nunca mais fui curado. E nem quero.
Foi na primeira oficina de teatro que fiz, que tive a real dimensão que o teatro tem. O teatro foi pra mim uma ponte pras outras artes e principalmente pro próximo. Me tornei mais humano. Mais gente.
O teatro abriu a janela do mundo pra mim. Uma janela que abre uma só vez, e não fecha nunca mais.


Claudio Phonseca – Ator e produtor

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Como fui arrebatado pelo teatro - por Tally Mendonça
Acho que meu primeiro encantamento com o teatro pode ser resumido nesse trecho:

Quando eu era pequenina, bem pequenina, eu tinha verdadeira adoração pelos smurfs. Era meu desenho preferido, eu tinha bonequinhos... Não preciso nem dizer que eu achava que eles existiam de verdade.
Um belo dia, minha mãe (também conhecida como Sra. Melhor Mãe do Mundo), me levou pra assistir a uma peça dos Smurfs. E lá estava eu vendo aquelas criaturinhas azuis. NA MINHA FRENTE! Pertinho. Tão real, tão de verdade... E a casa do Papai Smurf girava no palco e eu podia ver dentro. Era tão, mas tão mágico!
Do alto dos meus 3/4 anos, me encantei por completo. Passei a peça toda de boca e olhos arregalados, com aquele brilho no olhar que a gente tem só quando tem até 1 metro de altura e acorda na manhã do dia 25 de dezembro e encontra a árvore de Natal LOTADA de presentes reluzentes.

http://clementine-the-tangerine.blogspot.com.br/2009/11/o-dia-em-que-eu-revi-os-smurfs.html)


E eu completaria o surgimento do teatro na minha vida com esse texto:

http://clementine-the-tangerine.blogspot.com.br/2009/08/pq-eu-fui-fazer-teatro.html

Tally Mendonça - Atriz

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Como fui arrebatado pelo teatro - por Américo Nouman Jr.

Acho que eu me apaixonei por teatro há muitos anos atrás quando vi, como público, um belo espetáculo de teatro. Não foi certamente a primeira peça que vi em minha vida, mas me encantei a ponto de nem lembrar quais haviam sido as outras. Era um texto da Maria Adelaide Amaral que vi no teatro FAAP com Juca de Oliveira e Irene Ravache. A peça chama-se DE BRAÇOS ABERTOS. Me fascinaram (hoje eu sei) a luz, o texto, as interpretações e até mesmo o espaço físico de um teatro. Bem, é isso.

Américo Nouman Jr. - dramaturgo

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Como fui arrebatado pelo teatro - por Antonio Rocco
Depois do teatro infantil, nunca mais tinha pisado em um teatro. Foi então, que aos 15 anos de idade,  junto com minha classe do Colégio Santa Cruz, assisti  “A Morte do Caixeiro Viajante” de Arthur Miller, com Nathalia Timberg e Paulo Autran.
Saí de lá com  a certeza que iria dedicar minha vida ao teatro.
Estávamos em plena ditadura. Fiquei certo que o teatro tem força pra derrubar qualquer regime, modificar qualquer pessoa.

Antonio Rocco - diretor teatral, do teatro Next

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Como fui arrebatado pelo teatro - por Adriano Cypriano

Eu estava com treze anos e o professor de literatura chamado Hanry resolveu montar uma peça com seus
alunos. Era uma história rocambolesca parodiando Peter Pan, mas fazendo alusões à ditadura militar ainda no poder. Lembro dos ensaios e como ficava fascinado pela possibilidade da representação. Nossa estréia foi caótica e uma garota acabou queimando seriamente as mãos... foram horas de angústia e poesia que impregnaram eternamente minhas lembranças.

Adriano Cypriano - ator e professor de teatro

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Como fui arrebatado pelo teatro - por Fátima Braga

Eu já fazia teatro quando era pequena, criança ainda. Comecei interpretando uma árvore.
Cheguei a fazer um fantasma no "Romanceiro da Inconfidência" aos 15 anos.
Mas o "vermezinho" do tearo entrou mesmo em mim em 1995, quando comecei a frequentar os ensaios do Tap (Teatro de Amadores de Pernambuco). Lá tenho padrinho e madrinha. Escrevi uma peça chamada "História de uma mãe" e dirigi esta peça, com alunos de um colégio. Daí, fiz o curso do Sesc e não parei mais. Já estou com 17 anos de carreira consecutiva, sem interrupções. Já fiz coisas mágicas.

O bichinho do teatro se tornou uma paixão incontrolável. O teatro é também a minha vida. Eu amo o teatro. E agora apresento minhas poesias no Sarau das artes, do Grupo João Teimoso. Embora com todas as dificuldades, a arte permanece viva em mim. É isso.

Fátima Braga - atriz e escritora

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Como fui arrebatado pelo teatro - por Ricardo Dantas
Acho que o bichinho do Teatro me pegou , quando eu ainda estava no Jardim da Infância (Naquela época chamava assim) Fiz um espetáculo na escola "Pluft o Fantasminha" eu era tímido a beça, mas no dia da apresentação , eu fiquei completamente fascinado por aquele mundo, as coxias , o cenário. Encarei a platéia com a maior naturalidade , e me senti inteiro e confiante , não me lembro de muita coisa da minha infância, mas essa sensação de estar no palco eu nunca esqueci.

Ricardo Dantas - ator

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Como fui arrebatado pelo teatro - Normando Rabelo

Estava com meus 20 e poucos anos quando fui fazer um trabalho no teatro do Sesc em Sampa, era ja fim dos anos 70 e me deparei com o Plínio Marcos vendendo seus livrinhos. Na época fazíamos a peça Noel Rosa o Poeta da Vila, com o Everton de Castro. Já o conhecia da Boca, pois morava lá com o também ator Tony Vieira, dai o Plinio me pegou e disse: senta aqui vamos assistir uma peça de verdade. Assistimos e eu sai de lá chorando. Plinio, falou chora não que agora nós vamos vender livros juntos.
Vendemos 63 livro naquela noite. (risos)

Normando Rabelo - Ator, Diretor e Produtor

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Como fui arrebatado pelo teatro - Vanessa Goulartt

Acho que o teatro esteve presente na minha vida desde sempre, mas uma lembrança marcante é minha avó, Nicette Bruno, em cena no espetáculo "Dona Rosita, a Solteira" de Lorca. Eu devia ter uns 6 anos, e me lembro que havia uma cena que ela fazia com uma tesoura que simplesmente não sai da minha cabeça. É impressionante como o teatro tem a capacidade de gravar na nossa memória momentos tão efêmeros.

Vanessa Goulartt - atriz

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Como fui arrebatado pelo teatro - por Denise Del Vecchio


Eu tinha 15 anos e fui assistir "Morte e Vida Severina" do João Cabral de Mello Neto, com direção do Silney Siqueira no Teatro Municipal de São Paulo. A montagem era fantástica . Tinha acabado de voltar do Festival de Nancy na França onde foi premiada. Assisti sentada na " torrinha" bem no alto e sentia como se estivesse no palco. Saí pensando que aquele era o lugar aonde eu queria estar.

Denise Del Vecchio - Atriz

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Como fui arrebatada pelo teatro - por Marilandi Pereira

Acho que esta paixão pelo teatro já vem de outras vidas. Lembro que já fazia dramas homéricos com meus irmãos quando pequena, do tipo fingir que estava morta, dizer que ia embora e nunca mais voltaria, escrever bilhetes de despedida, este teatro nato das crianças.
Mas subi ao palco mais ou menos com uns 4 anos de idade. Minhas irmãs e primos montaram uma peça de teatro baseada em um circo que passou em Canelinha (minha querida cidade natal) chamado Pinduca. Eu tinha apenas duas aparições e me lembro exatamente como eram. Uma eu simplismente entrava em cena e dizia "Mãe, em baixo da água tem água?" e a outra era entrar na loja do meu primo, que fazia papel de sapateiro e perguntar se tinha sapato de gambá. Na estréia para as crianças do bairro, como não sabia nem falar direito perguntei se tinha sapato de bangá. Risadas e aplausos geral. E creio que foi neste dia que o bixinho do teatro me invadiu e criou morada. Até hoje lembro daquela sensação... Ai que saudades que me deu.

Marilandi Pereira é atriz

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Como fui arrebatado pelo teatro - por Otávio Martins

 A primeira vez que fui arrebatado pelo Teatro foi em "Electra Com Creta", do Gerald Thomas, quando eu tinha 14 anos. Pra mim o teatro era uma coisa bacana, mas jamais poderia imaginar as possibilidades que a criação teatral poderia trazer antes de ver aquele universo fantástico que vi na peça. Até hoje tenho na memória as performances de Maria Alice Vergueiro e Beth Goulart.

Otávio Martins é ator e diretor

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Como fui arrebatada pelo teatro - por Wilma de Souza

Década de 70. Cursava a EAD na primeira turma que começou e se formou na USP.Não tinha a menor idéia da importância do curso que estava fazendo.

Fomos assistir Peer Gynt com a direção do Antunes Filho. Fiquei maravilhada com a encenação que foi me deixando de boca aberta e olhos fixos naqueles atores maravilhosos, pensando que era tão mágico e tão bem realizado que eu não conseguia me imaginar fazendo o menor daqueles personagens.

Peguei o gosto para me dedicar à pesquisa e preparação de atriz a partir da seriedade dedicação e talentos que vi naquele espetáculo, que me contaminou completamente.

Wilma de Souza é atriz

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Como fui arrebatada pelo teatro - por Lizyh Elysa

Uma vez eu fui com o meu pai assistir a uma peça de teatro, uma comédia e me encantei com o jeito que os atores tem para mudar de humor em cada cena e em como eles conseguiam chorar e ao mesmo tempo rir. Mas, eu não pensei em fazer teatro ou coisa do tipo. Entao um dia eu tava na minha escola de ingles e vi um cartaz que dizia: "nova turma de teatro. Interressados falem com a diretoria". Daí eu senti que era o que eu devia fazer e agora eu tenho certeza de que eu nao errei na minha escolha.

Lizyh Elysa é estudante de teatro

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Como fui arrebatado pelo teatro - por David Medeiros
O teatro parece ter me tomado desde sempre. Quando era adolescente eu, minhas primas e vizinhos, montávamos peças para platéias enormes de 4 ou 5 pessoas, no quintal de casa, e éramos felizes demais com aquilo. Quando entrei no colégio, tive a felicidade de encontrar um monte de gente louca, que compunha o Projeto Criação, dirigido por Celso Solha e Juliano Pereira, do qual participei por 3 anos e é de lá a primeira imagem forte que guardo do teatro (1995), a encenação da peça Bobuque, a intenção que meus colegas queriam dar naquilo me acendia. Hoje, o protagonista daquela peça é um dos fundadores da Brava Companhia, que é notória em nossa cena teatral. Bem, depois de lá, e até hoje, ainda me faço platéia para sorver o néctar dessa bela arte e fico feliz das vezes que posso enfiar os pés na suculenta jaca que é o palco.

David Medeiros é ator e um amante de arte

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Como fui arrebatado pelo teatro - por Domingos Charik
Foi lá pros anos de 1988, quando fui assistir pela primeira vez uma peça de teatro, que foi numa escola estadual, a peça "DOIS PERDIDOS NUMA NOITE SUJA" de Plinio Marcos.

Foi algo magico que me tocou profundamente, assistindo aquela peça e aquilo tudo ao meu redor, cenário, canhões de luzes, fiação e os atores... fiquei encantado, daí por diante nunca mais deixei o teatro.

Domingos Charik é ator

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Como fui arrebatada pelo teatro - por Duca Rachid

"O Homem de La Mancha", com Paulo Autran, Bibi Ferreira, e Grande Otelo. e "Macunaíma" do Antunes Filho. Minhas primeiras peças, muito marcantes!


Duca Rachid é autora e roteirista da Rede Globo

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Como fui arrebatada pelo teatro – por Carla Giffoni

Minha relação com o teatro começou muito, muito cedo. Desde que pisei no colégio, já me voluntariei para participar de algum evento que tivesse que ir à frente declamar meia dúzia de versinhos. Era sempre uma das primeiras a levantar a mão, toda contente e feliz. Sou uma exibida, admito, e sempre gostei de aparecer sob as luzes da ribalta.
Lembro até hoje um dos muitos versinhos que declamei nos áureos tempos infantis. A primavera estava chegando, e o colégio promoveu uma grande atividade entre todas as séries, para saudar a estação das flores. Na minha turma, a professora deu para cada aluno que quis participar um pedaço de uma árvore. Para mim caiu a folha, e lá fui eu, toda vestida de verde e com dois pedaços de papel crepom recortados em formato de folhas. Na mão esquerda, uma folha amarela e, na direita, uma verde. Lembro como se fosse hoje que eu, alegre e saltitante, fui à frente, toda exibida, dizer os seguintes versinhos:

– Sou a folha, sou verdinha, sou verdinha (mostrava o papel crepom verde), mas quando fico velha (escondia o papel crepom verde e mostrava o amarelo), fico toda amarelinha!

Foi a glória!
Fiquei quase uma semana junto com minha tia-avó, carinhosamente chamada de Dindinha, ensaiando para não fazer feio à frente de colegas, professores, minha mãe e do pastor da congregação — eu estudava num colégio metodista.
Dedicação total durante sete dias, até encontrar o tom ideal para declamar os tais versinhos primaveris. Não é para me gabar, não, mas acho que Meryl Streep não se dedicou tanto a uma performance como eu.
É bem verdade que minha diretora teatral era uma mistura de Stanislavski e Zé Celso, com uma pitadinha de Gerald Thomas. Dindinha era rigorosíssima e não aceitava menos do que a perfeição. O resultado: fui ovacionada em cena aberta! Pelo menos, é assim que me lembro.
Depois, o palco do colégio já era pouco para o meu grau de exibição. Já estava maior, tinha uns 12 anos, quando ingressei no primeiro grupo de teatro amador em Barra Mansa. Dos 12 aos 25 anos fiz teatro amador, participei de festivais (fui até cotada como finalista para ganhar o prêmio de melhor atriz; não ganhei, mas não me importei. Já valeu ter concorrido!); atuava em peças nos colégios e onde quer que nos chamássemos, no estilo mambembe mais legítimo. Era ótimo, e aprendi muito a compartilhar e a escutar o outro.
Foram vários grupos de que participei: nóS OS nus , que brincava com o título ao escrever a palavra SOS, grupo Granada, Getape e Gatson (não me lembro dos significados das siglas) e, por último, participei de algumas oficinas dadas no Sesc Barra Mansa. Teatralmente, foi a melhor época de minha vida, porque tive professores como Luciano Maia (professor da Unirio), Roberto Lima (bailarino e professor da Escola Teatral Martins Pena), Zé Luiz, Carlos Pimentel, entre outros.
Formamos uma turma boa e unida. O Luciano, que na época morava na Urca, abriu a porta de seu apartamento para a trupe de jovens alunos barra-mansenses, que eram apaixonados por teatro. Era tão bom! Guardo nas dobras do coração a felicidade que sentia quando andava por aquelas ruas da Urca, principalmente a Ramom Franco. A gente comia macarrão com salsinha, jogava ImaginAção e Batalha Naval e era feliz, muito feliz naquele quarto e sala. Eu sempre precisei de pouco para ser feliz, já naquela época.
Durante a vida inteira, eu pensei que, quando crescesse, seria médica.
Uma vez, minha professora de português no ginásio determinou que cada aluno deveria entrevistar um profissional cujos passos quisesse seguir, então fui entrevistar o médico de minha família, o dr. Eros.
Naquela época, tinhamos um gravador da National portátil, e fui munida com o aparelho e diversas perguntas – não sabia que isso era uma pauta. Quando mostrei o trabalho, a professora primeiro não acreditou que euzinha tivesse tido a ideia e elaborado as perguntas. Ela disse que podia contar a verdade, porque não tiraria ponto do meu trabalho. Eu garanti a ela que tinha feito tudo sozinha, e ela insistiu, ainda não acreditando. Para dona Efigênia – este era o seu nome –, eu tinha tido ajuda de algum adulto, tipo minha mãe ou pai. Jurei de pés juntos que tudo saiu da minha cabeça, e aí dona Efigênia, depois de um minuto de silêncio, olhando dentro dos meus olhos, perguntou com voz mansa:

– O que você vai ser quando crescer ? (Eu tinha dez anos.)
– Vou ser médica! – disse, com o peito retumbante de orgulho.

Mais trinta segundos de silêncio, e ela profetizou:
- É, mas você poderia ser jornalista.
Quando ouvi suas palavras, fiquei indignada, como se a mulher tivesse me chamado de rameira ou algo que o valha. Naquela época, ser puta era ofensa.
Então quando, anos depois, na casa do Luciano, dei por mim e descobri que não queria ser médica, mas, sim, mexer com o teatro, foi uma grande descoberta. Sim, porque até então eu não encarava o teatro como algo que pudesse ter como profissão, era apenas algo que me fazia feliz e realizada. Parece coisa de maluco não associar felicidade e realização com profissão, eu sei. Mas não fiz esta associação até passar os finais de semana no apartamento do Luciano.
Resultado: resolvi fazer a prova para artes cênicas na Unirio. O Luciano ainda não tinha feito o concurso para a faculdade federal.
Escolhi para a prova prática a peça de Jean Genet As criadas. Eu e mais três amigos da trupe do Sesc de Barra Mansa prestamos vestibular para teatro. Fizemos duas provas: uma de conhecimento geral (matemática, física, português, biologia etc.); outra de conhecimento cultural (com nomes de diretores, dramaturgos, cineastas etc.); depois fizemos o teste de improvisação e, por último, uma cena escolhida previamente pelo aluno.
Como a vida inteira estudei para ser médica, meu nível de conhecimento era bom o suficiente para passar sem dificuldade; também passei bem na prova de conhecimento cultural.
O problema começou com a prova de improvisação, que foi até razoável, pelo que me lembro, mas a apresentação da cena da peça de Genet foi um desastre. O nervosismo me tomou a alma. Quando saí da sala onde me apresentei aos professores, o Luciano disse que eu estava amarela, com os lábios roxos. Resultado: não passei, e foi um momento muito triste e decepcionante para mim. Chorei horrores, acho que chorei todas as lágrimas de minha adolescência e juventude e, tive o colo amoroso do Luciano, do Roberto, do Zé Luiz, da Kátia (que era coordenadora do curso do Sesc de Barra Mansa na época) e do Pimentel.
Chorei. Chorei. Chorei. Chorei. Chorei.
Os três amigos de Barra Mansa que fizeram a prova comigo todos passaram, e aí me senti pior ainda. Alegre, porque eles tinham passado, mas infeliz, por não poder vir para o Rio.
Hoje entendo que, realmente, mesmo que tivesse passado, não conseguiria me mudar para esta cidade que amo. Ainda tinha ‘toco de vela’ pra queimar em Barra Mansa.
Ao voltar para minha cidade, fiquei sem saber que rumo tomar, porque já tinha perdido a ilusão infantil de que queria ser médica; o teatro tinha me rejeitado, e eu ia fazer o quê? Foi aí que minha tia Tereza sugeriu que fizesse uma faculdade em Barra Mansa mesmo. Fui para a Sobeu (era o nome da faculdade na época; hoje se chama Centro Universitário de Barra Mansa), e lá tinha várias cadeiras: Direito, Enfermagem, Jornalismo, Letras, Administração etc. Fiz o vestibular outra vez e passei com uma boa colocação.
Naquela época, o aluno entrava na faculdade, fazia o primeiro ano básico e depois, dependendo da pontuação, poderia escolher a cadeira que quisesse. Ele podia escolher três cadeiras, como primeira, segunda e terceira preferência: meu primo Renno sugeriu que eu fizesse Direito. Mas eu fui categórica:

– Renno, eu nunca vou aprender a fazer direito. Já nasci torta, não tem jeito.

Ele pensou que eu estivesse brincando, mas era verdade.
Minha primeira escolha foi Jornalismo, a segunda opção foi Letras e, para fazer a vontade do meu primo, incluí Direito como terceira opção. Culpa dele. Mas acabei passando para Jornalismo, já que tive notas legais no ciclo básico.
No primeiro dia de aula da cadeira de Jornalismo me apaixonei. Foi mesmo paixão à primeira vista. Rendi-me completamente e fui entusiasmada por todo o curso, que durou quatro anos. Antes do término do primeiro período já estava trabalhando na área. Era repórter política de um jornal semanário. Desde que comecei a atuar no jornalismo, sempre escrevi sobre política.
Amo escrever sobre política. Adoooro entrevistar políticos, ir para câmaras e assembleias legislativas! Adoro mesmo, do fundo do meu coração. Vale ressaltar que não sou filiada a nenhum partido político e sequer digo em quem voto.
Tem gente que não entende o meu amor por escrever sobre uma categoria profissional tão escorraçada no Brasil. Digo que amo e explico:
A política é um grande teatro. Tem o ator principal, tem o vilão, tem o pícaro, a mocinha, a mulher fatal, tem tudo que é personagem, e o melhor de tudo é que quem hoje faz o papel do mocinho pode se transformar em vilão amanhã! Nada é fixo, é tudo variável, é mutante. Uma grande encenação, uma grande arena, no melhor e no pior sentido.
Minha visão da vida é teatral.
O teatro está dentro de mim, mesmo que eu não pise mais num palco interpretando algum personagem. Hoje eu escrevo sobre eles, os personagens. Sou jornalista e também escritora e estou entrando na seara do audivisual como roteirista.
Hoje eles, os personagens, povoam minha mente, minha vida. Basta ir ao meu blog literário para ver que o que escrevo é verdade. Lá estão os vários personagens que criei: tem Carnegão, que é apaixonado por Ritinha; tem também Matilde e Donana, que buscam uma viúva no velório sem saber quem é ela; o Adão, que acha que se casou com a mulher perfeita; o Tuninho Hilário, que sofre porque ninguém o leva a sério. São mais de oitenta textos criados. Meu pacto com a fantasia é grande. Muito grande.
Na verdade, meu pacto com a fantasia é enorme mesmo; contudo, reconheço que este pacto é grande por causa da palavra. Se o teatro descobri aos cinco anos, quando entrei para o colégio, a palavra eu descobri um pouco antes. Antes mesmo de saber ler.
Lá em casa, sou filha única e sempre via os adultos lendo muito. Eu queira a atenção egoística infantil e sempre encontrava alguém com a cara enfiada naqueles objetos pesados ou mesmo numa folhas grandes que mais tarde vim a saber que eram os jornais.
Lembro-me de uma vez em que estava sentada na varanda da casa do meu avô, segurando um livro grande e pesado dele. Vô Fausto era farmacêutico e tinha uns livros pesados, com pouquíssimas figuras e que ele vivia lendo.
Lembro-me de estar usando um vestido azul-marinho que pinicava a pele; eu odiava a roupa, mas minha mãe me obrigou a usar. Lá em casa criança não tinha querer.
Se fechar os olhos, posso sentir o peso do livro nas minhas pernas gordinhas e a enorme curiosidade que sentia por descobrir o que tinha naquele negócio, aqueles sinais esquisitos (mais tarde descobri que eram letras) que faziam com que o pessoal da minha casa não me desse a atenção que eu queria.
O resultado disso é que, quando fui para o colégio, já sabia escrever meu nome inteiro – e ele é grande; sabia contar de um a cem; sabia formar pequenas palavras, como ‘ovo’, ‘papai’, ‘mamãe’, ‘mala’, ‘casa’, ‘rosa’ etc. Meu amor pela palavra começou aí.
Eu me lembro muito bem que numa ocasião…
Bem, mais isso é outra história.

Carla Giffoni é jornalista

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Como fui arrebatada pelo teatro - por Mônica Granndo


Tive algum momentos marcantes que me levaram a esta escolha, o primeiro deles foi aos 9 anos ao assistir uma apresentação da peça Chapeuzinho Vermelho, fomos mau pai, minha irmã do meio, então com 3 anos e eu. Lá pelas tantas esta minha irmã se levantou da plateia e correu ao palco pra ajudar a Chapeuzinho, fiquei impressionada com a verdade daqueles atores que convenceram minha irmã de que a apresentação era de real. Mais tarde, já com 16 anos iniciei um curso de teatro no Sesi de Sorocaba e depois da primeira aula, no palco daquele teatro, ouvindo os aplausos dos meus colegas tive certeza de que ali era o meu lugar. Nessa época assisti peças incríveis como "Corpo de Baile" dirigido por Ulysses Cruz, "Electra concreta" de Gerald Thomas, "Paraíso Zona Norte" de Antunes Filho e acada espetáculo desses tinha mais certeza do meu caminho. Este mês completo 25 anos de carreira, data da minha primeira peça em cartaz no Sesi de Sorocaba.

Mônica Granndo - atriz, diretora e professora de teatro

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Como fui arrebatado pelo teatro - por Mauro Baptista Vedia

A primeira peça que lembro de ter visto foi uma peça infantil que assisti em Montevideo, escrita pelo melhor amigo de meu pai, Alberto Paredes, Chun Chun, Los Ferrocarilles, era o nome em castellano. Lembro bem de meu ponto de vista, bem baixinho, eu deveria nao ter mais do que 5-6 anos e medir não mais do que 1 metro, assistindo os atores vestidos e fazendo o trem em cena, e da música composta para a peça, do mesmo nome. A cena era em plano aberto, geral. Chun, chun seria o ruido que o trem faz quando larga aquela fumaça. Eu me divertia muito e era, sobretudo, muito feliz, já que havia no atmosfera da época, fins dos sessenta, muito afeto, muito afeto e generosidade. Lembro também como se fosse hoje do rosto do filho do dramaturgo, Daniel, em primeiro plano, rindo e cantando para mim a música. Na época, consigo recordar que meu pensamento ao assistir a peça era sobretudo emoção, sentimento, felicidade, quando eu não tinha que me preocupar com nada e era rodeado de de afeto.

Mauro Baptista Vedia é diretor de teatro e cineasta

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Como fui arrebatada pelo teatro - por Maria Cordélia

A primeira experiência que me lembro com o teatro foi quando eu tinha 7 anos de idade e fui assistir a uma peça infantil "O segredo das 7 chaves". Eu fiquei encantada com o cenário, com os atores, achava mágico vê-los ali em cima no palco sendo outras pessoas diferentes deles mesmos. Naquele momento, o meu desejo era estar no lugar deles e desfrutar daquele poder de transmutação.

Maria Cordélia é atriz




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Como fui arrebatada pelo teatro - por Ithamar Lembo


O primeiro contato que tive com o teatro foi numa pecinha de final de ano no primeiro ano primário em que eu fazia "o mato". Isso mesmo... o jardineiro passava regando o jardim e "o mato" crescia balançando as mãozinhas com uma roupa verde, de papel crepom, horrível. Detestei a experiência. Primeiro porque não fui o jardineiro, o "papel principal". Segundo por causa da roupa ridícula.

Depois, aos 12 anos, por insistência da minha mãe, entrei numa peça que uma amiga dela dirigiu, chamada O Fantasma de Canterville, de Oscar Wilde. Fui na marra, puto da vida ( acho que ainda traumatizado pela pecinha do primário ), mas minha mãe achava que aquilo podia me "acalmar" um pouco, me fazer "melhorar" porque eu era uma peste.

Passei quatro meses ensaiando na má vontade, muito a contragosto, sem o menor prazer. Só queria contentar minha mãe e não via a hora que aquilo terminasse, a peça estreasse e acabasse pra eu voltar a ter meu tempo livre e voltar ao meu futebol.

Sem perceber eu decorava o texto muito rapidamente, as marcações e ainda lembrava a dos outros e sugeria soluções para as cenas. Estava mais envolvido do que minha marra imaginava.

No dia da estréia, todo mundo nervoso, ansioso e eu ali, querendo que começasse logo pra que terminasse logo também. Então chegou minha hora de entrar e quando pisei no palco e vi aquelas cabecinhas na penumbra olhando atentas pra mim, aquele "ar" que emana das pessoas e toca você lá em cima, alguma coisa mudou dentro de mim. Saí fazendo o que tinha que fazer com outra energia, outro astral, sentindo até um certo prazer de estar ali. No meio dessa primeira sequência, tive uma idéia de fazer uma coisa que não estava marcada, não havia sido ensaiada. Fui procurar o "fantasma" na casinha do Cuco no relógio. Peguei uma cadeira, subi, abri a portinha e forçava a cabeça como se quisesse olhar lá dentro. A platéia veio abaixo. Quando escutei aquelas risadas foi como se eu me sentisse o cara mais poderoso do mundo. Fiz 400 pessoas rirem sem fazer força.

Uma hora e meia de peça depois, entramos pro agradecimento. Luzes acesas, platéia de pé, olhares felizes, sorrisos na cara, palmas eufóricas e naquele momento eu tive certeza que nunca mais abandonaria o teatro. E do alto dos meus 12 anos, disse pra mim mesmo: vou fazer isso para o resto da vida.

Lá se vão 35 anos e estamos aí, fazendo isso a vida toda.

Ithamar Lembo é ator

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Como fui arrebatada pelo teatro - por Renata Belarmino

Ainda lembro, lá pelos meus 6 anos de idade, da minha mãe perguntando: “Então, você já escolheu o que quer fazer?” Sendo a quinta filha, e a mais nova, eu já via desde muito cedo os meus irmão envolvidos com atividades extracurriculares. Minhas duas irmãs faziam ballet, meu irmão mais velho desenho e natação e meu outro irmão, oscilando também entre futebol, natação e o Teatro.
Engraçado, eu pequenina acompanhando meu irmão com Zé Mojica, vulgo Zé do Caixão, no teatro. Que medo aquilo me causava, aquele caixão e aquele mundo, aquelas pessoas sorrindo frenéticas e satisfeitas pós-apresentação. Foi então que eu decidi o que faria Ballet. Um ano com meia calça, collant, faixa no cabelo, coque e uma energia que não conseguia acompanhar a leveza dos movimentos. Definitivamente não era minha praia, apesar de achar lindo. Desci do palco e disse que não queria mais, mas algo ficou desta experiência, subir no palco fez todo sentido, me senti livre, senti que podia dizer o que eu quisesse.
Aquela sensação permaneceu ainda durante alguns anos, mas fui fazer natação e sempre estive envolvida em testes e mais testes na infância, tanto para modelo infantil, como uma atriz mirim, contando com a experiência obtida em peças na escola (como eu ADORAVA). E então aos 12 anos iniciei os estudos, mas tudo não passava de um passatempo, minha atividade extracurricular, mas aos 15 anos quando me “libertei” de algumas amarras e atuei e dirigi num monólogo para um exercício em aula, eis que a ARTE me avassala, mostra que pode fazer muito por mim, por nós. O palco virou minha morada, as pessoas minha família. Entendi o que de fato é fazer ARTE.
O teatro é minha constante inquietação, ser ATRIZ não foi só questão de escolha, tenho certeza que o teatro nos chama. A minha maior expressão da alma, onde a Nutricionista Renata Belarmino é a Bela, a Rex, a Belarmino, onde a atriz é qualquer um, qualquer coisa sem limites, sem gênero, sem número, sem grau.

Renata Belarmino é atriz e nutricionista.


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Como fui arrebatada pelo teatro - por Angela Ribeiro

Como em Belém, na minha infância, as pessoas não tinham muito o hábito de levar seus filhos ao teatro (até por não terem muitas opções), meu contato foi mesmo na escola, fazendo teatro, dançando. :)
Quando criança, sempre gostei de criar personagens imaginários.
 
Inventava, pegava as roupas da minha mãe e fazia apresentações em casa para a família, até que um dia, em uma feira da cultura da escola, tivemos que fazer uma peça de teatro "de verdade", meu personagem era a lua. Devia ter uns 11 anos quando comecei a ler, pequenina, aquele texto. Meu coração começou a bater tão forte e senti um nervosismo bom misturado a uma alegria tão grande e inexplicável que pensei ali que queria fazer aquilo até morrer.
 
E, graças a Baco e as transformações que a arte me presenteou durante a vida, é assim que penso e me sinto até hoje.  Evoé.

Angela Ribeiro é atriz
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Como fui arrebatada pelo teatro - por Carolina Costa

Eu ia ver espetáculos com a escola, mas nada muito incrível, achava legal, mas nunca me imaginava no palco. E com minha família, ia mais ao cinema.
Não sei dizer exatamente porque comecei a fazer teatro, só sei que fui.
Fui levada por uma amiga da adolescência a fazer um curso livre de teatro, achava que seria divertido, mas nunca pensei em ser atriz.
Tudo era muito bom, as aulas, os jogos, a descoberta do corpo e das possibilidades infinitas da criatividade foram me transformando na vida. Eu me tornei melhor fora de lá, fiz amigos maravilhosos e com certeza minha vida ficou mais feliz.
O professor dessa escola me disse que quando eu subisse no palco pela primeira vez eu nunca mais iria querer descer.
Dito e feito, foi fantástico!
Brincar de contar uma história fazendo de conta que era outra pessoa com muitas pessoas que eu nunca tinha visto na vida assistindo tudo, foi arrebatador.
Depois disso, busquei o teatro como profissão e descobri muito mais dessa arte tão gostosa e incrível.
Apesar das dificuldades, como tem toda profissão, não faço outra coisa, sendo atriz ou professora, minha vida é teatro todo dia.

Carolina Costa é atriz e professora de teatro
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Como fui arrebatada pelo teatro - por Carlos Meceni

Tinha seis anos ,longe dos pais, morando em Sampa com uma tia, me trouxeram para estudar,lá onde nasci era mato, interior do Rio. Esta tia me levou a um espetáculo de teatro de bonecos de uma companhia italiana, no extinto teatro São Paulo, percebi que eu também sabia fingir, um fingimento que me tocava tanto, que me dava uma dimensão diferente de mundo. Chegando em casa comecei a fazer a mesma coisa e só brincava daquilo de "fazer" personagens, de senti-los e hoje, já velho, percebo que passei a vida, com todas as dificuldades que se apresentaram, brincando da mesma e única coisa: conhecendo-me através da observação das coisas e pessoas. Foi assim.

Carlos Meceni é ator, diretor e dramaturgo
  

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