A gente viu por ai

"Desilusão das Dez Horas"


Ontem fui ao Viga Espaço Cênico ver a peça "Desilusão das Dez Horas".

Senti cheiro de mar e ouvi gaivotas cantando ao longe!

Eu sou o tipo de pessoa que gosta de poesia. Da poesia da vida. E dessas coisas todas: ausência, desejos secretos, hipocrisia social, e tudo mais, todas ditas com poesia, com leveza, sem gritos, barulhos e pancadaria. E "Desilusão das Dez horas" é assim. Toca a alma sem gritar. Porque gritos assustam e afugentam a alma. A alma precisa de silêncio para assentar a areia no fundo e ouvir o canto dolorido das ostras "construindo" pérolas.

A peça me fez pensar que cada um de nós tem um "mar particular" dentro de si. Esse mar representa os nossos mais sinceros desejos e muitas vezes ele fica lá, escondido, ninguém sabe dele e a gente vive numa calmaria conformista, vive parado num porto social, ali onde é bom sermos vistos. E ficamos lá, em compasso de espera. Mas todo mundo que é mar dentro de si, tem dia que vira tempestade. E ouvem-se trovões, a onda varre a praia e carrega a gente pro nosso verdadeiro lugar. Muitas vezes, na grande maioria, acabamos de volta ao porto e ficamos ali mais uma vez, observando o mar, com vontade de voltar pra lá.

Nunca tinha visto Hélio Cícero em cena. (E aí me pergunto porque a gente perde tanto tempo?) Pretendo ver mais vezes. Ator incrível, verdade impressionante e uma voz de trovão tocante!

Os detalhes da atriz Mônica Granndo cortando verduras, mexendo a panela, movimentos tão precisos que apesar de não ter nada ali quase pude sentir o cheiro da comida.

E o menino de Alberto Guiraldelli? Não faz muito tempo, em outra peça, eu tive a oportunidade de vê-lo interpretando uma mulher (Gilda) e tive dúvida se era mesmo ele ou uma atriz muito parecida fisicamente com ele em cena. Já ontem, tive certeza que era um menino em cena e que o ator pode ser, verdadeiramente ser, tanto a mulher quanto o menino.


As luzes, os lampiões, as sombras... simples e primoroso!

Saí de lá com vontade de conhecer Wallace Steves (a peça é inspirada em um poema homônimo desse dramaturgo e mais um vez me pergunto: porque a gente perde tanto tempo?), ver mais vezes Hélio Cícero em cena e torcendo para que esse elenco possa nos brindar com novas histórias.


Gratidão Marcela Grandolpho, Mônica Granndo, Alberto Guiraldelli e Hélio Cícero pelo presente nessa noite de quinta! Foi um prazer navegar com vocês.

A peça "Desilusão das Dez horas" está em cartaz no Viga Espaço Cênico até dia 17 de Dezembro/2015, as quartas e quintas 21h. Vejam!

Por Rita Brafer - 06/11/2015


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"Maria Callas - Master Class"


Christiane Torloni como Maria Callas - Master Class
No domingo fui ao Teatro das Artes ver "Master Class", com a Christiane Torloni. Eu não conhecia Maria Callas e fui à Ópera uma única vez na vida, ver Tosca de Puccini, no Teatro Municipal de SP. Confesso que sinto uma certa pena de não ser possível ver Maria Callas em cena, já que hoje se completa 39 anos de sua morte.

Mas eu quero falar de "Master Class". Porque eu estive numa verdadeira Master Class, tive uma emocionante aula de arte. Logo antes de começar o espetáculo, algo me dizia: "Rita, preste atenção, você não veio aqui por acaso". Pois é. A aula que a Callas interpretada por Torloni dava aos aspirantes a grandes cantores de ópera é uma aula pra todo artista. Foi uma aula inspiradora pra mim. Era mais que estar na plateia assistindo uma peça de teatro, eu estava em uma aula ministrada por uma grande artista interpretada por outra. Nossa, e como fez bem!

Sobre a interpretação, Christiane Torloni não é uma cantora de ópera e não tentou ser isso. Não emprestou voz de cantora a Callas, emprestou voz de mulher e emprestou, principalmente, alma.

Eu chorei e me emocionei várias vezes durante o espetáculo e saí de lá querendo saber mais sobre essa mulher magnífica que viveu tão intensamente e que se entregou tão brilhantemente à sua arte, a seus amores...

Viva Maria Callas! Viva Christiane Torloni! 
Viva todos nós artistas e que sejamos capazes de nos entregar verdadeiramente todos os dias. De corpo e alma!

Vejam Master Class.

Por Rita Brafer - 16/09/2015

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"Quem tem medo de Virginia Wolf?" 
No último final de semana fui assistir o espetáculo  “Quem tem medo de Virginia Wolf?” no Teatro Raul Cortez.
Um excelente texto de Edward Albee. Na montagem, o elenco nos faz ficar atentos a cada cena e situação, as vezes torcendo contra e muitas vezes a favor de cada personagem.
 Zezé Polessa forte e ao mesmo tempo frágil em sua Marta. Daniel Dantas esbanjando emoção  em seus imensos textos. Erom Cordeiro sempre muito presente cena.  Mas a grande surpresa fica por conta da pequena aparição da personagem interpretada pela atriz Ana Kutner. A atriz consegue transformar essa pequena aparição no grande destaque da peça, um maravilhoso trabalho de atriz! Ana Kutner dá o seu recado, mostra seu talento!
Excelente espetáculo! Um texto difícil mas que na boca desses atores se tornou fácil entendimento.

E ainda dá tempo de ver! Fica a dica!

Por Denise Orthis - 05/06/2014
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"Senti um vazio no começo, quando o coração foi embora, mas agora está tudo bem"
 
Nesse final de semana fui ver o espetáculo "Senti um vazio..."

No programa diz que a peça tem duração de 1hora e 10 minutos e eu estou até agora imaginando como é possível ficar todo esse tempo sem respirar. Porque foi com essa sensação que eu estava ao final do espetáculo, a de ter ficado o tempo todo com a respiração suspensa.

Marcela Grandolpho
O "quase" monólogo da atriz Marcela Grandolpho me prendeu do primeiro ao último segundo, tanto que não descansei as costas no enconsto da cadeira em nenhum momento.

Foi como se eu tivesse sido transportada para dentro das lembranças de alguém que sofre. Os rostos manchados dos outros personagens para mim soaram como aquelas lembranças de momentos que gostaríamos de esquecer e teimam em povoar a nossa mente, aparecendo assim: como rostos borrados, sem que pudessemos lembrar a verdadeira expressão das pessoas que fizeram parte desses momentos.

Não consegui rir das "piadas", das tiradas engraçadas de Dijana porque era como se cada uma delas viesse com uma enorme dor embutida.

A Dijana acreditava desacreditando... ela dizia saber que estava prestes a sair, mas a dor que ela transmitia denunciava que ela sabia que não seria tão fácil, que todo esse poder de ser "boa com os números" era apenas parte de um sonho que ela mesma sabia distante. Ela era como aquele pássaro na geladeira... se debateu durante muito tempo, sem conseguir achar a janela... como está tanta gente, em tantas situações. As vezes até dentro de sim mesmo. Quantas vezes o nosso "pássaro" não está preso dentro de nós mesmos, embaixo de uma folha velha de jornal amassado.

O "quase" monólogo de Marcela Grandolpho tem junto a si um elenco afinado. Menção especial à personagem Glória, que me surpreendeu. Um ator que me fez esquecer por aquele breve momento que ele não era uma atriz de fato. A Glória foi construída sem caricaturas, com gestos sutis, muito bom de ver.

É... eu não senti um vazio. Nem no começo quando o coração parou de bater. E me sinto feliz pelo teatro puro, cru e essencial que vi no sábado ter feito o coração bater de novo. Bater asas de pássaro fora da gaiola e gritar: viva o teatro arrebatador!

Por Rita Brafer - 30/09/2013
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"Bom Retiro 958 metros" 
Ontem tive o prazer de ir ver o espetáculo "Bom retiro 958 metros". Fomos eu e a Débora de Souza.
Roberto Audio
Uma breve (e apressada) caminhada da Oficina Cultural Oswald de Andrade até o ponto incial do espetáculo: a Rua Prof. Cesare Lombroso (Lombroso? O Assombroso) nº 259. E dalí partimos para uma viagem pelas ruas, lojas e escombros do Bom Retiro. Ruas, lojas e escombros de nós mesmos.
Vertiginosa a passagem pelos corredes do "Dopping Center" nós, sem história, espelhados nas vitrines.

Vermelho vertiginoso.

Vertiginoso o "mendigo/indigente" com sua lucidez confundida com loucura (ou seria o contrário)? São tantos loucos lúcidos que encontramos pelas ruas da nossa cidade. Ele me lembrou alguns bêbados, nóias (seja como a gente os chame) que já encontrei pela cidade.

Vertiginoso o carregador invisível que se sente real trocando amor com uma manequim (não seríamos nós todos invisíveis?).

Vertiginosas as gotas frias da garoa da noite de Sampa (parece que até o universo conspirou para a poesia daquelas horas).

O cheiro, a forma como a iluminação do bairro se transformou em iluminação do teatro, o som (até o dos passos de todos nós andando pelas ruas molhadas) entrava pelo ouvido, junto com o cheiro... tudo vertiginoso. O espaço urbanano plenamente transformado em arte.

Lixo, tudo vira lixo. O ser humano se tornou descartável assim como tudo que ele sonha consumir. Consumo, Vazio, Fedor, Restos restos restos do que talvez tenhamos sido...

O teatro em escombros... Cheiro. Escuro. (maldito quem inventou o celular que acende luz quando tudo devia estar escuro) todos nós presos num barco afundado que está fazendo água cada vez mais... Evacuar área! Evacuar área! Evacuar área!

Vertiginosa a manequim que sofre, destroçada com a cabeça pendurada na caçamba. Mas a lua tá no céu. Tá uma noite agradável...

Vertigem!

Por Rita Brafer - 4/02/2013
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"O Violinista no Telhado"
José Mayer
No domingo, dia 10, fui ao Teatro Alfa ver o espetáculo "O Violinista no telhado".

Pra começar nunca tinha ido ao Alfa, imaginava que a sala fosse bem maior (não que seja pequena), o palco bem mais alto, etc etc, acho que confundia com alguma casa de show (Credicard Hall, ou coisa assim). A sala do Alfa é super "aconchegante" e os balcões superiores me lembraram um saloon. E a curtina do cenário da peça me lembrou nossos painéis do espetáculo "A Queima ROupa", mas eles foram bem mais espertos e fizeram uma cortina, em tecido, e nós fizemos painéis em madeira... um terror pra carregar e montar. Enfim, mas não é disso que quero falar e sim do "Violinista".
Aliás o pequeno violinista com cachinhos angelicais é a coisa mais tocante e bela que vejo nos últimos tempos no teatro. É lindo aquele "anjinho" tocando violino. Simples e algo divino.
Ah, mas assim que o José Mayer pisou no palco a platéia veio abaixo! Gritou e aplaudiu! Pô, mas ele nem tinha feito nada demais ainda! Até me assustei e quase me esqueci do pequeno anjo do violino. Mas enfim, também acho o José Mayer "tudo de bom", e até o final da peça fiquei com raiva de não ter aplaudido junto quando ele entrou, porque o cara mandou muito bem e mereceu os aplausos antecipados.
Eu costumava dizer que não gostava de musicais, mas em um curtíssimo espaço de tempo isso foi por terra. Primeiro quando fui ver a pré-estréia de "Enlace - a loja de ourives" e agora me en-CANTANDO com "Um Violinista no Telhado".
O espetáculo é muito bem feito, bem trabalhado, um figurino belíssimo, elenco super afinado, ótimo texto, divertido, belas canções, coreografias empolgantes (dá vontade de dançar junto), uma fotografia linda! Aquelas "luzes" nas casinhas no fundo, o trenzinho passando, dá vontade de chorar, uma saudade de não sei o que...
Ah, os atores cantantes mandam muito bem!Eu nunca tinha imaginado o José Mayer cantando e curti muito, boa surpresa (e ele mais uma vez merece os aplausos antecipados), um vozeirão muito bom de ouvir. Nossa! E o maravilhoso Tenor Russo (Ricca Barros). E a coreografia dos "soldados" na cena do bar! Muito bom!
A peça prima pelos detalhes. Nos olhares dos atores, nas respirações, nos tempos muito bem colocados. Cenário impecável. Fiquei querendo mais, passou rápido!
Amei (e odiei) particularmente uma personagem, o Chefe de Polícia. Ele dava medo e raiva. O ator Luiz Carlos de Moraes foi perfeito. Uma outra menção que não quero deixar de fazer é ao ator André Loddi no papel de Motel, divertidíssimo.

Quanto ao Tevye... eu sou ainda mais fã do José Mayer. É muito bacana ver um ator que não se acomoda em ser "o galã", e é muito mais que isso, é um grande ATOR, com toda a entrega ao papel.
E o que fica marcado mesmo é o pequeno violinista tocando no telhado com seus cachinhos à luz da lua.

Por Rita Brafer